Presidenta Dilma Rousseff (à direita) e governador Sérgio Cabral (à esquerda) aplaudem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva
Rio
de Janeiro (AE) - A passo lento, mancando um pouco e amparado pela
ex-ministra da Secretaria Nacional das Mulheres Nilcéia Freire, o
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva entrou ontem no palco do Teatro
João Caetano, no Rio, para receber cinco títulos de doutor honoris causa
sob aplausos, palavras de ordem e comoção. "Lula/guerreiro/do povo
brasileiro", entoou, em coro, a plateia formada por ministros,
secretários de Estado, militantes do PT, professores, estudantes. Chapéu
preto escondendo os cabelos ralos devido à quimioterapia e à
radioterapia, às quais recorreu para combater um câncer de laringe,
Lula, de aparência frágil e escoltado por uma "comissão de honra",
passou bem devagar em frente à mesa que comandaria os trabalhos. A
bengala com que aparecera na véspera estava com um assessor que o
seguia. Dois clarinetistas tocavam a Bachiana Número 5, de Heitor
Villa-Lobos. Sentada, a presidenta Dilma Rousseff chorou.
Foi
o início de uma série de elogios ao ex-presidente e a seu governo
(2003-2010), comandada pelos reitores de quatro universidades federais
do Rio (UFRJ, Fluminense, Uni-Rio e Rural) e também da Estadual (UERJ),
que concederam os títulos. Todos exaltaram a política educacional de
Lula. "Campeão de utopias realizadas", "doutor da causa da humanidade" e
"eterno presidente do Brasil" foram expressões usadas pelos dirigentes
na cerimônia em que Lula recebeu os diplomas e vestiu as "vestes
talares" do título: a samarra, espécie de toga, e o capelo, chapéu com
franjas. Ambas são vermelhas, cor-símbolo das ciências humanas. Apesar
da fragilidade, depois de vesti-las Lula brincou, mostrando a língua e
fazendo o sinal de positivo. Fora, estudantes de Medicina da UFRJ em
Macaé protestavam contra más condições de ensino.
"Não é possível
viver sem esperança, e quero lhe agradecer por isso", afirmou,
dirigindo-se ao ex-presidente, o reitor da UERJ, Ricardo Vieiralves, que
após seu discurso abraçou Lula e deu-lhe um beijo. Já o reitor da
Universidade Federal Fluminense (UFF), Roberto Salles, apesar dos
elogios, pediu gastos de 10% do PIB para a educação e protestou contra
os baixos salários do setor. O reitor da UFRJ, Carlos Levi, foi
"saudado" por um grito de "cotas na UFRJ" - a universidade reserva vagas
para estudantes da rede pública, mas não utiliza critérios raciais para
a escolha. A presidenta Dilma não discursou, mas, ao lado do
ex-presidente, enxugou lágrimas, puxou palmas, sorriu e até "soprou-lhe"
algumas informações, ajudando-o no discurso.
Ex-presidente faz discurso emocionado
Emocionado,
mas sereno, o ex-presidente parecia mais disposto que na véspera. Com a
respiração inicialmente um pouco ofegante, pediu desculpas por falar
sentado, o que, afirmou, não é seu hábito, e por não discursar de
improviso, mas ler um discurso previamente preparado, porque sua
garganta, contou, ainda está em processo de recuperação. "Ou seja, se
por acaso eu não conseguir falar, vocês sabem que eu tenho até um
reserva aqui, que vai ler o discurso para mim. Quero pedir paciência
para vocês", disse ele, arrancando aplausos.
O ex-presidente
declarou-se honrado com os títulos que recebeu. "Vocês não podem
imaginar o que significa para alguém como eu, que não teve as
oportunidades escolares que todo jovem deveria ter, mas que sempre
acreditou no potencial libertador do conhecimento, e que a vida inteira
apoiou a luta pela educação, tornar-se doutor honoris causa dessas
magníficas universidades", disse. Ele se emocionou ao falar, com voz
embargada, dos moradores do Rio de Janeiro, " nascidos aqui ou vindos de
outras terras, mas inconfundivelmente banhados pelo espírito carioca".
Diferentemente,
da véspera, em solenidade no BNDES, na qual manteve-se estritamente no
texto preparado, Lula nesta sexta arriscou alguns "cacos" no discurso de
20 minutos. Afirmou que, nos quase 40 anos ao longo dos quais tem
visitado a cidade, nunca o chamaram para ir à praia, e, ao falar do
Plano Nacional de Educação, brincou com o ex-deputado Antônio Pitanga.
"Até você, Pitanga, vai poder voltar para a escola com o plano nacional
de educação", afirmou, provocando risos. O ex-presidente fez um balanço
positivo e elogioso de seu governo e também defendeu o governo da
presidenta Dilma.
"Eu, que antes do diploma de presidente da
república tinha somente o diploma de torneiro mecânico do Senai sei o
quanto a educação é capaz de mudar a vida de uma pessoa, de uma família e
de uma nação. Pois foi aquele diploma que me abriu a oportunidade de
emprego e de uma vida melhor", afirmou, pouco antes de encerrar o
discurso e deixar o plenário, ao fim da solenidade, sob aplausos. Dali,
foi para um almoço, no Palácio Laranjeiras, com a presidenta, Cabral, o
prefeito Eduardo Paes e o ex-ministro da Educação Fernando Haddad.
Fonte: TN